Home : Paul Simon, a turnê de despedida e ‘home’ – Juliana Ravelli – Medium

Provavelmente ouço Paul Simon desde a barriga da minha mãe. Preciso checar com ela se é desde a barriga mesmo. Ela tem um álbum de greatest hits do Paul Simon com o Garfunkel que nem sei dizer quantas milhares de vezes ouvi durante a minha infância, adolescência e vida adulta. É um em que o Paul está com cabelão, boina e bigode.

Quando comecei a namorar o Dani – meu marido –, descobri um álbum do Paul Simon na casa dele. “Não acredito! Você também gosta de Paul Simon?” Daí, não tive muita escolha senão me apaixonar de vez…

Dani me contou que brincava de Lego enquanto ouvia Paul Simon na infância. Será que em algum momento, lá pelo começo dos anos 90, nós dois ouvimos Paul Simon no mesmo dia, na mesma hora, a mesma música?

Há quase três anos, quando a gente se mudou para os Estados Unidos, eu não sabia que Paul Simon já havia fornecido material para me preparar para o que seria esse país. Pena que não percebi isso antes. A complexidade e a simplicidade, a força, a aspereza, o humor, as injustiças, a malícia, a beleza, as contradições, a profundidade… Está tudo lá nas músicas do Paul Simon, um americano que nasceu em Newark, Nova Jersey, e começou a compor aos 12 anos.

Why deny the obvious child?

Todas as vezes que faço uma viagem maior de ônibus pelos Estados Unidos, gosto de ouvir Paul Simon. Especificamente, gosto de escutar America. Olho pela janela e penso: “Que coisa louca…” Também penso: “O que tô fazendo aqui?”

“And we walked off to look for America”

É com America que Paul abre o show da sua turnê de despedida: Homeward Bound. Ele anunciou a série de apresentações em fevereiro, dois meses após a morte do guitarrista camaronês Vincent Nguini, que trabalhava com Paul havia mais de 30 anos. Nguini morreu em Abadiânia, Goiás. Ele buscava a cura para um câncer no fígado com o médium João de Deus.

Em Chicago (quarta-feira, 6 de junho), Paul Simon, 76 anos, agradece ao público — com palavras, com o corpo e com músicas — pela companhia nessas décadas todas. “Últimas turnês e tudo fazem você pensar… Porque a gente tem a chance de pensar sobre coisas que eu acho empolgantes, do tipo: o que eu vou fazer (no futuro)? Eu vou escrever mais músicas (o público comemora)… Eu simplesmente gosto da ideia de não saber o que eu vou fazer e acabar encontrando alguma coisa… Eu não sei o que é… Não vai vir pra mim até isso ser passado e eu olhar para trás e dizer: Sei pra onde eu deveria ir e é pra onde eu vou”, disse.

And we talked about some old times
And we drank ourselves some beers
Still crazy after all these years

Paul Simon compõe e canta, principalmente, sobre pessoas. E eu acho isso lindo demais… Um personagem recorrente em algumas canções é aquele com saudade de casa, em busca do lar.

When I left my home and my family, I was no more than a boy

Acho que ‘home’ é minha palavra preferida em inglês, a mais bonita. É tão cheia de significados… E ‘home’, nos Estados Unidos de hoje, é mais do que uma palavra. É uma concepção que não para de ganhar profundidade e provocar perguntas. Afinal, what is home? Where is home?

And I’m laying out my winter clothes and wishing I was gone
Goin’ home

Homeward Bound, o título da turnê, significa ‘Indo para casa’. Engraçado como, pra mim, Paul Simon é sinônimo de casa, de ‘home’. Logo penso no toca-discos dos meus pais e no meu quarto na casa deles; eu sentada no chão gelado pensando em tudo… Pensando em nada…

Home, where my thought’s escaping
Home, where my music’s playing
Home, where my love lies waiting
Silently for me

O show já passa de duas horas de duração. Para o terceiro bis, a banda — magnífica — se despede. Ficam só Paul, o violão, um foco de luz nos dois e o público. Até o telão é desligado. Parece que Paul Simon volta pra uma espécie de origem, o início de algo. Ou será que sou eu?

Primeiro vem American Tune. Depois, The Sound of Silence. Eu fecho os olhos e, por alguns segundos, estou em casa novamente.

Foi uma das noites mais mágicas da minha vida.

And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more
People talking without speaking
People hearing without listening
People writing songs that voices never share
And no one dared
Disturb the sound of silence

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